Abril 09, 2005
Não tem mais gelo pra ele
Pobre do urso polar, não tem mais gelo pra ele. Maior carnívoro terrestre, gloriosa besta branca dos árticos, impiedoso na caça. Abocanha com força um filhote de foca, que arrasta pra longe pelo pescoço enquanto a bichinha se debate. "Não, não! Me larga sr. Urso!", e ele nhoc a jugular. É o fim. Serve coca quente num copo com gelo pra ajudar na digestão. As carótidas polares sofrem muito com o calor, deixam ilhado o urso branco na geleira flutuante. Tem que fazer mais gelo pra ele, que o freezer não dá conta. No pouco espaço que sobrou ele guarda a carne congelada. Vovó dizia: "Meu filho, dá uma ajudinha enchendo as cubas d'água, não custa nada". Mas é chato tirar gelo dos ladrilhos, chato à beça. Eles quebram, os cubos caem no chão, molham tudo. Pega o pano, que se o chão ficar molhado, vovó pode se quebrar. A velha já não anda direito e solta muito CFC. _ Abril 03, 2005
O filho do chef
Já tentei de tudo do menu. Da codorna aux noisettes ao simples pato com laranja, o moleque não quer nada. Quando for maiorzinho, mostro tudo pra ele: "As pessoas pagam até cento e cinquenta reais por esses pratos, viu? E voce cuspia neles". Até um filé com fritas, Jesus, eu realmente fiz um filé com fritas e ele mal triscou no prato, "tá sem sal". Moleque. Se a mãe estivesse aqui, qualquer coisa que fizesse ele comia. Agora, vai saber se a covarde tá em Praga ou Teresina, a essa altura. Cospe o filho e vai embora, chá de sumiço. Sete anos, e aquela carta, "boa sorte com teu pai", ainda me deixa esse moleque que embrulha a barriga só com o cheiro de lagosta. Ela acha o quê? Que ele não sente falta? A gente volta do futebol todo sábado, ele e a bola nos meus braços, e duas barrigas roncando a tarde toda, que eu não posso cozinhar. Culpo a vó dele. Quando ele ainda tinha uns 4 anos a gente foi pra casa de Dona Sara em Minas, conhecer a família da mãe, aquela coisa. Ela fazia uns bolinhos, como era o nome? Capitão, algo assim, uma nojeira portuguesa que, segunda ela, é mantida viva até hoje só em Minas e no sertão. São bolinhos de feijão com farinha, que a vó vai amassando na mão e dando na boquinha dos netos enquanto prepara “com muito amor”. Com muito amor. Me enojava assistir àquilo, mas ele adorava. E eu ainda tive que ficar dando aquela nojeira pra ele, na boquinha, até seus 6 ou 7 anos de idade, por aí, ou ele morria de fome. "Quero a comida da vovó, quero a comida da vovó." _ Março 28, 2005
Moro na Barra
Meu namorado ama o carro dele, nunca vi. É uma F-10 prateada cheia de tuni, tem mil negócios no painel dele. Neon, rodômetro, velocípede, coisas que eu não entendo. Ele conhece cada pardal do Rio de Janeiro, e faz Niterói-Barra em 15 minutos todo dia sem vir multa. Às vezes eu acho que ele gosta mais do carro que de mim. Chama minha coisinha de Rebouças e me faz chamar o dele de picape. Eu obedeço porque senão sobra pra mim. Ele às vezes fica muito nervoso, ainda mais no trânsito. Quanto tá puto com alguma coisa, corre a duzentos, se vinga de tudo, até de quem tá a pé. Eu fico preocupada. Ele odeia táxi, odeia ônibus, odeia van. Odeia até pedestre que avisa com a mão que a lanterna tá ligada. Ele uma vez capotou no Aterro, mas sobreviveu. Saiu do hospital com mil faturas e ficou a mesma pessoa, não mudou nada. Continua acelerando e ainda não aprendeu a acender os faróis antes de entrar no túnel. _ Março 21, 2005
Rekomenci
Essa fala de um japonês, um alemão, um italiano e um português. Dessa vez fala também de um mecânico, um químico, um engenheiro, e um técnico de informática, todos viajando no mesmo carro para o Universala Kongreso de esperanto em Curitiba. Estão, na verdade, atrás de gatas que dominem a língua. O chinês, motorista, encosta num cantinho pra mijar na árvore, que ele nao aguentava mais. "Sankta Jesuo!" exalta, enquanto se esvazia. Os três riem, sentados. Quando o japonês volta ao seu assento, o carro não quer pegar. Os quatro, irritadinhos, saem para empurrar, mas de nada adianta. Sentam-se então no mato para debater o problema em inglês mesmo. O chinês mecânico, aponta para o capô do carro, culpando o calor e o engarrafamento. O químico e o engenheiro europeus discutem por horas a pureza do combustível e a qualidade da injeção do carro. Decidem que a ignição desse modelo é sempre problemática, e deviam andar até o mecânico mais próximo para comprar outra peça. O coreano olha verde para os dois. Enfim vem a sugestão do português informágico: "Rekomenci!". Bastaria que todos entrassem, saíssem e voltassem ao carro, que daria partida. Os quatro se levantam, usam a árvore alternadamente, e então cumprem o procedimento. No que o chinês arrisca uma ignição, o carro segue viagem fácil com os quatro esperantistas. Um deles tem um sorriso no rosto. _ Março 14, 2005
Já vai...
Já vai. Já vai. Pra tudo ele diz que já vai, nunca faz nada na hora. Desde criança, "meu filho vem almoçar", gritava "já vai" e se chegava à mesa, os pratos dos outros já estavam sujos de tão limpos. Não se deu muito bem nos escritórios. Chefes de gravata sempre querem tudo pronto, prontinho, na hora, asap. Relatório pro CEO? Já vou mandar. O contrato B2B, enviou? Já vai. MBA? Ai, meu deus, já vou tirar. CSI? Já vai. Não durava um mês em cada emprego. Sabe deus como sobreviveu. No dia que sonhou com Ele - quer dizer, era deus mas não era - perguntou quem era. Deus responde "Teu Senhor, que se cansou de ser chamado sempre assim. Agora vem você pra cá". Disse a deus, então: "Já vai", e é por isso, só por isso, que até hoje está aí, com seus cento e tantos anos e o velhote lá de cima ainda no aguardo. _ Março 07, 2005
Cat Lady
Miam trinta e sete gatos na casa de Dona Nora. Namorou quando era moça e, com sorte, casaria. Era Jorge seu rapaz, barba loira, advogado, educado mas alérgico. Ao deixá-la em ultimato - "Ou eu, ou os gatos" - Nora jovem desabou pra não voltar. Seu consolo ficou sendo o ronronar de Ailurinho, o gato persa da família, que no colo da mocinha parecia lhe falar: "Fosse Jorge coisa boa, não teria esse nariz, fica sempre longe dele, meu ronron é mais feliz." Já idosa, jaz felina Dona Nora em sua casa, o corpo mole na cozinha, estirado pelo chão. Os miados dos famintos lhe devoram toda a face - só três dias de vizinhos perturbados que bastaram pra encontrarem a gata velha, com a foto de Jorge no coração. Dona Nora amava os gatos, que amavam Dona Nora. _
Só Constantine expulsa demônios das pessoas.
![]() Top 4 sites sobre Falafel: 1. Receita mediterrânea original. 2. The Falafel Game 3. Falafel pelo correio, pra quem não quer cozinhar. Só pros EUA. Bah. 4. Estivesse vivo, o que Jesus estaria comendo? Pesquisas indicam que seria um cara pró-falafel. Dezembro 05, 2004
es un conejo bianco?
Novembro 25, 2004
Como sacanear as pessoas pt. I
O amigo é acordado por telefone às 3 da manhã. Está, portanto, de péssimo humor. Vai direto ao escritório, sem passar pela cozinha ou pelo banheiro, e põe-se de frente ao aparelho de fax. Disca um número aleatório, atende uma senhora, que desliga rapidamente ao não ser respondida. Após o clique, o amigo dá com o dedo indicador no botão laranja, usando toda a força de seus punhos. Apaga-se a luz vermelha, a linha está livre. No seu panorama, encontra o que se vê de hábito num escritório domiciliar. O computador ao lado da impressora, a mesa, o durex, o pilot e a tesoura. Pega duas folhas do chamequinho já aberto, e o pilot preto. Rabisca a folha de cima a baixo com violência, até que enfim ela anoitece por completo e é oferecida na bandeja do aparelho de fax. Repete o procedimento com a segunda folha, mas esta, ao invés de colocada na bandeja, é presa à primeira com durex, de forma que uma nova folha é criada, com dupla extensão e totalmente preta. Abre as páginas amarelas e procura no índice, qualquer coisa serve. Então disca. Uma máquina atende, o barulho é estridente e repetitivo. Dá com o dedo novamente no aparelho, desta vez no botão verde, a transferência é iniciada. A longa folha corre por dentro do aparelho, até que metade de sua extensão já esteja transmitida. O amigo então dobra a mesma por cima do aparelho e cola uma de suas extremidades à outra, de forma que um ciclo é criado. O fax está em loop, transmitindo pura negrura por toda a madrugada. Na manhã seguinte eles terão uma surpresa! Novembro 14, 2004
Esse calor tá um absurdo.
Alguém precisa fazer alguma coisa a respeito. Eu me vejo reclamando anualmente, que está muito quente, e não vai dar, Highlander dois é o que há, e a vontade é de ficar o dia inteiro em casa no ar condicionado, mas assim a economia não vai pra frente. Já falaram que, de quente, o terceiro mundo ficou no atraso, maior mentira porque de tudo nasce aqui. Países frios e calculistas como os das escandinávias não conseguem cultivar a maioria das folhas e cereais. Não, vocês não têm noção, dos vegetais o mais consumido na Finlândia é o MALEFICO tabacow. Já vi gente reclamando que é difícil pensar quando está quente demais, que atrapalha o vestibular, não sei o quê. O cérebro trava quando fica quente demais, quem lê na praia ao meio-dia é poser ou muito muito muito negão. No futuro ficcional do romancista americano Filipe K. Dick, a temperatura das ruas de Nova Iorque chega a 80°C por conta do derretimento das carótidas polares. Os ambientes internos são aquecidos por dutos de resfriamento, falhas nesse sistema resultam num verdadeiro genocídio: mortes em massa de bichos de estimação, idosos e doentes e outras coisas podres. Para transitar em ambientes mais quentes, seres humanos utilizam à frente dos crânios unidades de resfriamento pessoais. Foi inspirado nas idéias de K Dick que um jovem estudante de informática do MTI, Robert Hamilton Cooler, concebe a ventoinha interna para microprocessadores em 1973. Seu invento, que permitiu o descobrimento da Internet, além de muitas outras maravilhas tecnológicas, ganhou o sobrenome do pai: o cooler. A causa número um, ou ao menos top 5 com certeza, dos travamentos de computadores é seu hiperaquecimento, seja do processador, da placas de video, da fonte, dos pentes de memória, do monitor, da impressora ou do mouse. Quando um processador come um eléctron, libera, inevitavelmente uma molécula de calor para cada partícula absorvida da tomada. Essas moléculas que se acumulam no interior do gabinete devem ser removidas dali ei ass ei pi, e pra isso servem os ventiladores. Projetos de gabinetes bem resfriados costumam receber prêmios influentes como o Nobel, o oscar da inteligência. Um sistema de resfriamento bem esquematizado é de fato crucial em regiões quentes como Natal, capiau do Piauí. No verão riogranordestino, as economias daquele estado chegam a sofrer um pesado impacto nas áreas de computadores e internet. A alta temperatura faz com que a maioria dos processadores ultrapasse a marca dos sessenta centígraus, o que resulta no travamento do sistema operacional ou morte cerebral da máquina.
- "Minino nao da cempre que faz calor o pentio empaca e a gente nao consegeu mais compra pexeras onláini", reclamam estes 'cabras da peste' de Teresina. Nesse calor que tá fazendo, acho importante o uso de fontes com dois ventiladores, além dos coolers de gabinete e de chassis. São tão importantes quanto a ventoinha da CPU, já que dão conta do resfriamento interno do gabinete. Por que as placas são quase todas verdes? Pensem nisso |
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